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Mission at East Timor
Mission at East Timor

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Chocantes Contrastes

Seis anos haviam se passado desde o primeiro massacre, quando as milícias timorenses, mantidas pelo exército indonésio a poder de rupias e de drogas, queimaram e pilharam todo o país, de ponta a ponta. Porém, os restos desse gigantesco incêndio ainda eram encontrados por onde quer que se fosse quando chegamos no Timor Leste, centenas de casas e edifícios em destroços, negras paredes sem teto, janelas banguelas arreganhando para o infinito seus dentes cariados de ferros contorcidos das lajes despencadas. Milhares de famílias amontoadas em casas sem teto, cobertas por folha de zinco ou plástico, habitadas em apenas um ou dois de seus cômodos.

Na época o país se quebrou por completo e desde então vinha tentando uma reconstrução, mas antes mesmo que a fumaça do último massacre tivesse se apagado, súbito outro massacre se dá, agora entre o próprio povo timorense, como se os inimigos, antes de partir, tivessem lançado contra esse pobre povo uma maldição, condenando-os para sempre à consumação pelo fogo.

Contrastando, porém, com o cenário surrealista e grotesco dessa cidade negro-cinzenta que é Dili, existem ali dezoito embaixadas instaladas em verdadeiros palácios de marfim, cujos aluguéis atingem cifras faraônicas. Além disso, o mundo inteiro está também representado em Dili através de Ong’s: de Solomon a Somália, da Nigéria ao Kongo, Ong’s essas que têm na miséria timorense a justificativa para os milionários salários de seus participantes, cujas folhas de pagamento chegam a comer 70% de seus orçamentos, Ong´s cujos presidentes e suas loiras amásias desfilam pela cidade em carrões de altíssimo luxo, levam uma vida de marajás a viver em mansões e comer no luxuoso hotel cinco estrelas que Dili possui, e aos fins de semana ou viajam para os países vizinhos (Indonésia, Malásia, Tailândia, Austrália), ou passam suas horas a se distraírem no mais caro hobby do mundo: mergulho oceânico, aproveitando o azulíssimo mar de Timor, onde os mergulhadores se despejam feito patos na lagoa com seus trajes milionários que não perdem em nada para um astronauta, repletos de lanternas e câmeras filmadoras.

 Os Supermercados de Importados: Vitrines de Natal

Para atender a demanda dessa leva de estrangeiros que fervilha pela cidade, existem os luxuosos supermercados abarrotados de produtos importados, que acumulam tamanha variedade de mercadorias, que deixa o consumista com água na boca. Neles são encontrados os mais exóticos produtos, desde caldo de cana holandês a suco de flores de perfumadas ilhas do oceano Índico, ou lulas ao molho de especiarias chinesas, moluscos das profundezas do Pacifico, carne congelada de golfinho, carne de baleia enlatada do Japão, carne de canguru, camelo e crocodilo importadas da Austrália, maionese doce da China, pé-de-moleque apimentado da Índia, bolacha quente da Malásia, biscoito ardido da Tailândia, macarronada enlatada da Itália, sopa de algas do Japão, condimentos inimagináveis das Ilhas Fiji, licores de frutos exóticos e afrodisíacos da África, cogumelos das Filipinas, isso sem falar da cachaça brasileira, por sinal caríssima. E todo esse convite ao culto do consumo desfila através de tamanha profusão de cores, embalagens e formatos, que fazem desses intermináveis corredores de mercadorias um estonteante caleidoscópio capaz d  levar os consumistas às raias da loucura.

Ao povo timorense, porém, só o que lhes resta é assistir do lado de fora dos supermercados ao vai-e-vem frenético dos estrangeiros entrando e saindo a largos passos, acompanhados dos carregadores transportando lotadas caixas de produtos. Raríssimo encontrar um nativo dentro desses supermercados, a não ser os mais altos funcionários do governo ou algum grupo de jovens que esteja apenas assistindo aos produtos, como crianças namorando a brinquedos do lado de fora de uma vitrine de natal.

Depois de um tempo, já que com tudo na vida se acostuma, todo estrangeiro que vem para o Timor Leste acaba se acostumando com esse extraordinário desnível social e dentro em breve ele será também mais um a rebolar o frevo dos consumistas desvairados, única compensação que resta às vidas que se encalham nesse porto queimado, a mais nova nação do mundo, que engatinha encardida por sobre as brasas de um incêndio que nunca não deixou de arder.

(Trecho do meu livro Timor Leste: Vaca de Soberbas Tetas)