BBB: ARENA CONTEMPORÂNEA
BBB: ARENA CONTEMPORÂNEA

 

BBB: ARENA CONTEMPORÂNEA

Na antiga Roma os cristãos eram jogados numa arena fechada para serem devorados pelos leões famintos, enquanto que o povo a tudo assistia e aplaudia de pé àquela luta sangrenta, àquele espetáculo de horror  em que apenas o mais forte sobreviveria.

Hoje a TV Globo coloca igualmente confinados em quatro paredes um bando de pobres-coitados, jovens despreparados  que se sujeitam ao ridículo de fazerem o mesmo papel dos antigos cristãos a serem devorados pela gana irrefreável do povo faminto, ávido de sangue e sensacionalismo. 

A diferença reside apenas no fato de que os antigos cristãos buscavam a luz do espírito, enquanto que os participantes do BBB estão apenas à cata das trevas materiais, traduzidas ali em  fama e fortuna.

Esse é nitidamente um jogo sadomasoquista onde os que retroalimentam esse espetáculo de horror contemporâneo, em níveis inconscientes estão a botar lenha na fogueira de seu sadismo. Quanto mais sofrimento e agonia vazar através das situações  vivenciadas naquele confinamento, tanto mais o povo beira as raias do prazer.

O espectador dessa arena de horror contemporâneo é o indivíduo que traz camuflada uma tremenda carência sexual, pois que atrás de toda tara sádica há sempre uma culminância orgástica; é um mal-amado que precisa desse estímulo externo para ejacular seu gozo encalacrado e solitário.

E os participantes desse espetáculo se dão a esse papel de servir de objeto de prazer,  tanto que a beleza física e a seminudez são condições sine qua non (sem a qual, não) para se participar desse jogo diário sadomasoquista em que eles se sujeitam a uma situação de agonia  para que seu parceiro (o povo) atinja seu gozo.

E aquele que não desempenhar esse papel a contento leva de seu parceiro a chibatada de ser excluído, encurralado num paredão da mesma forma que os leões faziam na antiguidade à hora de devorar suas vítimas.

Por que as pessoas apresentam essa tendência sadomasoquista?  Na psicanálise freudiana vamos encontrar uma das prováveis respostas: relação culpa-castigo-redenção. O indivíduo se sente culpado, então se castiga; tanto se castiga quando faz o outro sofrer, quando se sujeita a servir-se de objeto de tortura. E essa culpa, vem de onde? Dos sonhos irrealizados, da existência sem sentido, dos projetos frustrados, dos malogros encalhados no porto do fracasso existencial.

Qual a solução para esse câncer social? REAGIR. Reagir ao niilismo (culto ao nada), reagir à inércia existencial, dar à própria vida um cunho utilitário, deixar de olhar para o próprio umbigo, erguer o semblante e se dar conta de que existe um universo acima e além de sua minúscula fronteira existencial, preparar-se através do conhecimento, do desenvolvimento de seus talentos pessoais, da capacitação profissional, da auto-instrumentalização para o sucesso pessoal, profissional e social, Munir-se de instrumentos contra o obscurantismo, esse estado de espírito refratário à razão e ao progresso, essa doutrina daqueles que não desejam que a instrução penetre na massa do povo, contrária ao progresso intelectual e material, esse estado de completa ignorância.

 

Jerusa Guijen Garcia

Mestre em Psicanálise Comunicacional

Escola de Comunicações & Artes  - USP